6/02/2009

Texto proposto pelo Nuno, nas nossas tertúlias mensais de escrita. O mote era: escrever sobre o MEDO, em primeira pessoa.


Com dificuldade cheguei ao fim das escadas. Sentei-me nos degraus a tremer, tentando ignorar a multidão que passava por mim àquela hora da manhã. Não conseguia seguir adiante. O túnel escuro. As pessoas que se acotovelavam, lutando entre si por espaço. Toques inevitáveis de desconhecidos. O barulho estridente da sirene a cada paragem. Mais um comboio aproximou-se e o som ensurdecedor dos carris encheu a plataforma, e uma nova onda de pessoas invadiu o cais.



O pânico paralisou-me, mas não consegui subir as escadas para sair dali, nem pensar em serpentear por aquela infinidade de pequenos obstáculos deslizantes. Não poderia encarar aquele mar de homens e mulheres que me olhavam, inquisidores e reprovadores. Era um monstro a deslocar-se lentamente para lugar nenhum.


Eu não era capaz. Sentia-me parte de uma máquina. Uma máquina de morte. Fiquei ali, de olhos fechados, por muito tempo. Horas se passaram, não sei dizer quantas. Observava as pessoas apressadas a passar por mim, os comboios a chegar e a partir barulhentos, até que o silêncio trouxe-me novamente a paz.


Estava finalmente sozinha. Sozinha estava segura. Sozinha não tinha medo. Em mim, podia confiar. Levantei-me do degrau frio e esperei pacientemente pelo próximo comboio.
Com grande alívio, respirei fundo, dei um salto, e atirei-me em frente a ele.

3 comentários:

nêta disse...

YESS!!!
E o blogue já mexe!
Óptimo texto, Leila. Parabéns.
Devias postar o da 'morte'.
Beijos
P.S. Onde anda o resto da malta?

graça correia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
graça correia disse...

Mas a perícia do maquinista permitiu-lhe desviar rapidamente o comboio!
Felizmente.